quinta-feira, 25 de março de 2010

HISTÓRIA DE UMA VIDA

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DIREITOS AUTORAIS

Registro [original] nº 0288700 - Digital Organização Safe Creative / 2010

O trabalho indicado, Rita Emboava: Segredos Revelados, é exclusivo dos autores Celso Prado e Junko Sato Prado, que se responsabilizam pelas autenticidades das referências, créditos devidos e documentos apresentados, mantendo cópias digitalizadas em arquivos – Cópias Digitalizadas: Arquivos dos Autores (CD: A/A) para os devidos fins. Atualização em 19 de janeiro de 2016.

Disponibilização de cópia PDF – edição revista e acrescida - 2018



Contato: pradocel@gmail.com


ÍNDICE REMISSIVO


1. Dos relatos
2. Da 'santidade' - processo sociológico
3. Outras publicações sobre Rita Emboava
3.1. "Ritinha Emboava – Santa?"
3.2. "Ritinha Emboava vida e milagres"
3.3 "Nomes inesquecíveis (...) Ritinha Emboava"
3.4. "Santidade de Ritinha Emboava ainda é lembrada"
4. Resgates históricos – 2010

1. Documentos atestatórios

1. 'Lepra' – doença segregativa

1. O estigma da doença sobre a família Emboava

1. Talvez as tradições mais lindas que a história
2. Alguns 'milagres' noticiados

1. A doença e suas manifestações

VII - SUPEDÂNEOS

1. Significados do apelido Emboava
2. Das fotos atribuídas a Rita Emboava
3. Dos documentos e arquivos dos autores

I – RESGATES DOCUMENTAIS

Cemitério Municipal de Santa Cruz do Rio Pardo – 'Capela de Rita Emboava'
mandada erigir por Luiz [Zito] Berna – para o pagamento de promessa
1. Dos relatos 
Até o ano de 2010 dizia-se Rita Emboava, mulher hanseniana, que chegou a Santa Cruz do Rio Pardo, não se sabe de onde, para nela fixar morada até sua morte, em 1931. Trazia sobre si uma aura de santidade que a tornava aceita pela sociedade, numa época que os 'leprosos' eram presos e compulsoriamente confinados, para sempre, numa gafaria.
Esmoler, perambulava pelas ruas da vila com o bordão em cuja ponta um gancho para, de certa lonjura, recolher de sobre o passeio público os vasilhames descartáveis com mantimentos, guloseimas e outros mimos, que a população lhe ofertava.
De certa e segura distância as pessoas, talvez à espera de agradecimentos, lhe acenavam e ela lhes retribuía com afável sorriso e gestos de agradecimento, ensejando sempre melhor sorte a todos, prosperidade e bênçãos dos céus.
O proceder de Rita, resignada com a doença que lhe levara os filhos e marido, emocionava a todos.
Quando lhe anunciavam alguém na casa enfermo ou com problemas outros, a mulher parava, olhava para os céus e gesticulava contatando a Deus – assim acreditavam, para a ação divina sobre o caso ou transmitindo mensagens de conforto.
Desde logo, em vida, tornou-se santa consagrada pela fé popular, uma milagreira.
Durante anos Rita andava, e depois quase que se arrastava pelas ruas recolhendo donativos. 
De tudo quanto recebia, diziam, tinha por hábito repartir com outros leprosos que viviam isolados num acampamento de passagem, na 'Água do Pires', onde a denominada grutinha. A despeito de sua mísera condição, levava as ajudas aos iguais desafortunados.
Dos leprosos, também cuidavam os abnegados membros das irmandades religiosas existentes na fé católica, a exemplo da Nossa Senhora do Carmo, que levavam mantimentos até o acampamento, deixando-os nas proximidades para recolhimento. 
A ação impedia que os doentes entrassem na área urbana, onde somente Rita, acometida do mal, não tinha restrições do gênero, e sabia quando e por onde andar.
Enfim aconteceu o tempo que Rita não podia mais movimentar- se, e, desde então, isolada na sua casa, numa pequena chácara que alguém lhe deixara morar, onde se localiza uma capela erigida em sua homenagem.
A Rita, nada faltou. Famílias piedosas ou em buscas de retribuições espirituais se dirigiam até onde morava levando toda a sorte de ajudas, que ela recolhia com longa vara improvisada com um gancho, para, em seguida, retribuir com agradecimentos e bênçãos.
Rita faleceu aos 27 de outubro de 1931, e ainda hoje é a 'santa da cidade', da qual recebeu já homenagens diversas, 'in memoriam', inclusive emprestando seu nome a um novo bairro residencial.

2. Da 'santidade' de Rita Emboava – processo sociológico
Os 'milagres' atribuídos às intervenções de Rita Emboava, até o meado de 1950, jamais careceram de documentos comprobatórios, recebendo-os aqueles que necessitavam e tinham fé, ou os julgados merecedores.
Rita, por tudo quanto era conhecida, trazia em si as qualidades precisas para ser considerada santa, tratando-se de pessoa inocente, incapaz de pronunciar ou praticar o mal, dotada de comovedora piedade, resignada com a moléstia segregatícia, e em tudo, pelo que recebia, dava graças. 
Então se pensou num movimento para sua santificação oficial, conceituando-a dentro das regras de fé e da religiosidade, com os primeiros registros sobre relatos de pessoas que a conheceram – testemunhos presenciais, e os auriculares – aqueles que, idôneos, 'ouviram dizer'.
Propósitos oportunos, nos anos 1950 a meado de 1960, ainda viviam pessoas nascidas a partir de 1870, aquelas que alcançavam diretamente a personagem Rita, pelo menos desde o último decênio do século XIX, podendo desta maneira atestar-lhe, fidedignamente, sua mansidão mesmo diante dos tantos infortúnios que marcaram sua existência.
Movimento pouco lembrado na história santa-cruzense, a ele opuseram-se os padres, aparentemente preocupados com os cultos à 'milagreira' não reconhecida pela Santa Sé, em detrimento aos santos canônicos. Os clérigos em Santa Cruz procuraram desconstruir os feitos atribuídos a Rita, proibindo missas e rezas coletivas na capela, para onde afluíam famílias congraçadas.
Ciente dessas discussões teologais e de fé, o santa-cruzense, professor Teófilo de Queiroz Filho, depois mestre e doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo/USP, viu publicar o seu trabalho "Rita Emboava 'A Santa' de Santa Cruz do Rio Pardo", pela "Revista Sociologia, Volume XXVIII, junho-outubro de 1966, números 2 e 3, páginas 193 a 206, Fundação Escola de Sociologia e Política/Instituição Complementar da Universidade de São Paulo – USP", feito desconhecido ou não divulgado localmente, cujas imagens ora anexadas para leitura.


Quando dessa publicação, em 1966, Queiroz Filho ainda residia em Santa Cruz: "Saí (...) com objetivo de fazer uma pós-graduação (...), mas só me removi ao final de abril de 1967." - [Debate, nº 1231, edição de 07/11/2004, 'Professor recebe título de Cidadão Emérito', entrevista: http://www2.uol.com.br/debate/1231/cidade/cidade12.htm.
Queiroz Filho, ninguém antes dele, deu ênfase aos testemunhos de pessoas vinculadas e próximas à sua família, que conheceram 'Nhá Rita', mas, apenas um sabia pessoalmente do marido de Rita Emboava:
"(...) Sòmente 'Siá' Inocência, mulata vigorosa, parteira muito popular nos meios mais humildes da cidade é que nos forneceu algumas informações sôbre o Boavinha, como o denominou. Disse-nos que ele era 'lá das terras dos Boavas'... que tanto pode significar Minas Gerais, de onde parece que ele veio, como também Portugal, onde talvez tivesse nascido. Em 1900, aproximadamente, data mais remota de que se lembraram dela, os entrevistados que a conheceram, Nhá Rita já vivia nesta cidade, morando sózinha. Estava então na fase inicial de sua moléstia – a lepra. Seus filhos e seu marido já teriam morrido e do mesmo mal de que teria sido portador inicial e transmissor a todos o chefe da família." (p: 194).
Para Queiroz Filho, "Nhá Rita era casada com um português, conforme ela narrou a uma parenta nossa" por nome Antonio apelidado Emboava, que em decorrência da moléstia deixou de ser tropeiro para experimentar pequena lavoura, depois "lidou com 'essas coisas de lata' (funilaria) e terminou fazendo candeias (velas de sebo para iluminação doméstica)." (p:194, na sequência da declaração de 'Siá' Inocência).
O marido de Rita, conforme documentos colhidos por SatoPrado, chamava-se João Miguel [ou Martins] Linhares [ou Linhaes], não Antonio, morto antes de 09 de junho de 1890, embora correto o apelido 'Emboava'.
Segundo o autor, sobre possíveis nascidos de Rita: "Falou- se de até cinco filhos. Só conseguimos informação precisa sobre um, Antonio, sepultado em fevereiro de 1903, às expensas da Irmandade de N. S. do Carmo (...)." (p: 204).
Demais testemunhos ajuntados por Queiroz Filho datam a partir de 1900, identificados por siglas – inclusive os seus parentes. Do rol somente identificada, além de 'Siá' Inocência, a "Calina (quituteira de mão cheia e 'cozinheira obrigatória' em eventuais banquetes) que cozinhou sempre pra Nhá Rita, quando as ofertas vinham em mantimentos e não em comida já preparada." (p: 195).

3. Outras publicações sobre Rita Emboava
3.1. "Ritinha Emboava – Santa?"
O professor e advogado Celso Fleury Moraes, escreveu "Ritinha Emboava – Santa?" (Debate Cultural, ano 1 nº 3, suplemento mensal, edição de setembro de 1981).
Os testemunhos presenciais informados por Fleury mostram Ri- tinha num período de 1923 a 1931, quando ela já não andava, conforme declaração do senhor Pedro Frazio, porque seus "membros foram destruídos pela lepra, e arrastava-se pelo chão do barracão onde morava e de tanto fazer, o chão brilhava".
Fleury, informado por Frazio, destacou individualmente as mulheres que auxiliavam Ritinha em suas necessidades: "Dona Lisuca Sampaio, Dominga Mazante, Izabel Rios, Nhá Belina (esposa do Zaeca Rios), Nhá Chica (esposa do Zeca Carreiro, feitor da Prefeitura). Foi mulher muito sofrida e quem a banhou e colocou no caixão foi Joaquim da Luz, antigo braçal da cidade."
Ainda pelo mesmo informante sobre Rita, "A população comiserada pelo sofrimento e miséria da infeliz, colocava mantimento a porta, num prato de ferro esmaltado."
Otávia Maria da Conceição lembrava-se que:
"Ritinha era mulher muito magra, que andava se arrastando pelo chão. Quando ela não queria que alguma criança pegasse em alguma coisa dela, dizia para que não chegasse perto, 'pois ali havia uma formiguinha que mordia as crianças'. Recorda-se de que em uma ocasião houve uma seca muito grande e pediram a ela que fizesse chover e quando chegou de noite, choveu. .... Nada cobrava pelos benzimentos e desconhece se teve filhos. Sabe de vários milagres, mas não conhece nomes. Os pedidos geralmente eram para sarar de doenças, falta de chuva, etc."
Isaura Berna recordava:
"Ritinha era magrinha, de altura mediana, usava um vestidinho vermelho com um lenço na cabeça e arrastava-se de barriga pelo chão. Dormia em cima de um saco de estopa e benzia muitas crianças, mas elas não podiam entrar dentro do barracão. Fazia os benzimentos através de um buraco na janela e o que recebia dava para os mais pobres do que ela. Era mulher sofrida, mas não se queixava da vida. Desconhece milagre ocorrido enquanto Ritinha era viva, mas ouviu falar deles após sua morte."
Fleury também se reportou ao testemunho de José Ricardo Rios (1929/1998), autor da obra "Coronel Tonico Lista – O perfil de uma época, publicação Debate 2004, Santa Cruz do Rio Pardo", que sabia muito da história de 'Sinhá' Rita, pelos parentes e conhecidos, inclusive da morte da investigada, e disto relatou Fleury Moraes:
"Segundo José Ricardo Rios a falecida viera de São João da Boa Vista e morava numa casa de madeira a qual depois de sua morte foi queimada, quando era prefeito o Dr. Abelardo Pinheiro Guimarães (1930 a 1935). Uma senhora, de nome Ocalina e a irmã do Tonico Lista, Dona Tita [Cristina], tratavam dela, dando-lhe inclusive banhos. Ritinha teve um enterro muito concorrido com acompanhamento de banda de música."
—Ocalina, também chamada Calina, "baianinha de roupas brancas e engomadas que prestava serviço na casa do coronel [João Baptista Botelho]" (Rios 2004: 26), trata-se da mesma personagem Calina relatada por Queiroz Filho.—
Outra testemunha avocada por Fleury, José Pacífico Nogueira (1913/1995), o 'Zé da Gruta' (1913/1995), era sobrinho de 'Siá Inocência', conheceu Rita e, por anos, o responsável pela manutenção do túmulo original da 'santa', depois o construtor, por empreita, das duas capelas existentes em homenagens à morta, uma na parte do terreno onde morou 'Siá Rita', outra no cemitério substituindo a sepultura.
Enquanto viveu, Zé da Gruta zelou das duas capelas, além de ser o maior entusiasta e devoto de 'Nhá' Rita.
O autor destaca, por 'Zé da Gruta', que Rita foi casada, mulher de boiadeiro de posses, e depois ficou na miséria. O informante valia- se, evidentemente, dos conhecimentos de sua tia Inocência.
As informações de 'Zé da Gruta' dão contas que inúmeros ex-votos guardados na capela e são provas das graças alcançadas por de- votos da Ritinha e alguns deles vieram até de outros estados.
Segundo Fleury "O próprio Zé da Gruta sofria de uma enfermidade na garganta e não conseguira resultado algum com inúmeros médicos que consultara. Um dia, ajoelhou-se na porta do cemitério e foi de joelhos até o local onde estava enterrada Ritinha e lá, cheio de fé, fez uma oração e depois 'voltou de fasto e sarou'."
Nos anos de 1980, "No cemitério, o túmulo de Ritinha está sempre rodeado de velas acesas".
Adiante segue o trabalho e Fleury:

3.2. "Ritinha Emboava vida e milagres"
Dante Anderson Menezes da Cunha, numa pesquisa escolar, em 1999, para a disciplina Folclore do curso de Educação Artística, pela Faculdade de Arquitetura Artes e Comunicação, UNESP/Bauru-SP, apresentou entrevistas com pessoas devotas que ouviram dizer da investigada, evidenciando a popularidade de Rita quase setenta anos de- pois de sua morte.
A informante Orpídia Malvina de Oliveira [Nogueira], nascida em 1929, entregadora de orações impressas aos devotos informou que Ritinha "não tinha dedos e se arrastava pelo chão e chamava 'doença contagiosa' e não tinha cura".
Orpídia disse que ficou sabendo de Ritinha pelo Zé da Gruta, "que cuidava dela", narra a cura do Zé da Gruta e menciona que "O Luiz Berna ganhou na LOTO e aumentou a Igrejinha [do cemitério]".
Situação omitida por Menezes da Cunha, a testemunha Orpídia foi mulher de Zé da Gruta.
Luiz Berna ganhou prêmio na loteria esportiva, e cumpriu a promessa em mandar fazer a Capela, onde consta escrito os dizeres "Oferta de Luiz Berna".
Elizeu Nascimento, com 72 anos em 1999, afirmou ter conhecido Ritinha, e "eu passava em frente a casa dela [para] pedir benção". Este entrevistado teria, quatro anos de idade quando da morte de Ritinha, portanto, mais bem situado na condição de testemunha de passagem e audição.
Rosa Biazin Venturini, nascida em 1924, não conheceu Ritinha pessoalmente, e dela ouviu falar com a idade de 22 anos, ou seja, em 1946, através dos sogros e pais, e narra um acontecimento que considera milagre: "As 'criação' do meu cunhado morreu quase tudo, aí pediu pra Santa e o primeiro boi salvo foi dado pra Santa".
Menezes da Cunha menciona dentre as pessoas entrevistadas, a professora Iracema Alvim, mulher que conheceu pessoalmente Ritinha Emboava, mas sem detalhes ou transcrição de possível relato de preciosa testemunha.
Iracema Alvim, conhecida dos autores, foi uma das mais sérias testemunhas a respeito de Rita Emboava.

3.3 "Nomes inesquecíveis (...): Ritinha Emboava"
O Professor José Magalli Ferreira Junqueira, autor da obra "Santa Cruz do Rio Pardo – Memórias – Subsídios para a história de uma cidade paulista", edição 2006 às páginas 225/226, descreve Rita Emboava entre os nomes inesquecíveis da história local:
"Muitos santa-cruzenses ainda guardam na memória e no imaginário a figura de uma mulher pobre e simples que, após sua morte, fora considerada como uma verdadeira santa. Acometida de lepra, uma infecção crônica e, muitas vezes, contagiosa, que produz graves lesões na pele, nas mucosas e nos nervos."
O autor, firmado em testemunhos ou nas tradições informa:
"Ritinha se arrastava pela casa e se escondia das pessoas, temendo causar graves contágios entre as pessoas. Vivendo na pobreza, a enferma dependia da caridade dos santa-cruzenses, que iam à sua casa, para levar-lhe alimentos e roupas. Consciente de seu estado de saúde, Ritinha não desejava aproximar-se das pessoas. Roupas e alimentos eram colocados à porta de sua humilde casa e, com pequena vara, distanciando-se das pessoas, Ritinha recolhia os benefícios recebidos."
3.4. "Santidade de Ritinha Emboava ainda é lembrada"
Numa reportagem para o hebdomadário Debate, edição de 06 de agosto de 2006, o jornalista Luiz Fernando Wiltemburg escreveu a matéria, fundamentada numa entrevista com Orpídia Malvina de Oliveira Nogueira, zeladora das capelas da 'santa' desde a morte do seu companheiro Zé da Gruta, por volta de 1995.
Em tal reportagem Wiltemburg lembra, sempre de acordo com Orpídia, de Luiz Berna, o mais afamado dos devotos de Nhá Rita:
"Ele teria feito promessa para ganhar na loteria. Conseguiu e ampliou a capela, levantando um cômodo para abrigar os objetos deixados pelos pagadores de promessa. 'Aí tinha um monte de coisas deixadas por quem recebeu graça, até muletas', conta Orpídia. Os objetos foram retirados por causa da reforma recente."
O jornalista observa: "Sobre as duas portas da capela do cemitério há plaquetas com os dizeres 'oferta de Luiz Berna' (...)", e a seguir demonstra queda na popularidade de Rita:
"Recentemente reformada, a capela do cemitério já não apresenta velas acesas em louvor à 'santa', que, na verdade, não foi canonizada e não tem nenhum milagre reconhecido pela igreja católica. Orpídia visita o local, em média, duas vezes por semana para fazer a limpeza. 'Mas, quando fico doente, passo a semana inteira sem ir', justifica."
"A capela de Rita Emboava localizada no centro da cidade também está bem cuidada. Segundo a responsável pelo local, Maria Aparecida Tosato — que mora na mesma rua da capela —, ela freqüentemente é procurada por pessoas que solicitam as chaves para pagar promessas. 'Vem gente até de fora. Ontem mesmo, vieram dois homens de Ourinhos', conta Maria."
"Recentemente pintada por um santa-cruzense (talvez por alguma graça recebida), o local também não apresenta velas ao redor, mas imagens de santos estão dispostas no local específico, do lado de fora da capela."
"Segundo ela, os cuidados com a capela são divididos entre os vizinhos. 'Embora ninguém tenha conhecido ela, todos aqui têm um pedacinho da história dela para contar', opina Maria Tosato."
4. Resgates históricos – 2010
As pesquisas de 2010, em relação à investigada por SatoPrado, ocorreram quando poucos os vivos dentre aqueles que conheceram a personagem.
Os autores/entrevistadores, com duas fotos pressupostamente de Rita Emboava encartadas entre outras três antigas de locais conhecidos (Igreja Matriz, o Grupo Escolar e a Santa Casa) e quatro de pessoas santa-cruzenses notórias (Lucio Casanova Neto, Leonidas Cama rinha, Onofre Rosa de Oliveira e Noêmia Alóe), visitaram cinco idosos, três masculinos e dois femininos, que pudessem ou não reconhecer alguns dos retratos.
Sem qualquer estímulo os retratos óbvios foram reconhecidos, e apenas um homem, de início vagamente depois por si mesmo, teve lembrança total e emocionada de Rita, na cópia que aparece isolada do grupo para retrato individual.
Das perguntas, os nascidos entre 1914 a 1919 recordavam dela, ainda andando, não mais pelas ruas da cidade, nem mesmo apoiada no bordão, assim, isolada em sua casa, próxima ao Ribeirão [do] São Domingos, e lá era vista cambaleante no terreiro, ainda em pé, antes de apenas arrastar-se por onde fosse.
Curiosamente os nados entre os anos 1920/1923 tiveram dificuldades maiores, com justificativas que eram crianças e só viam Rita de longe ou por um vão na parede de tábuas, e ela apresentava-se sentada. A maioria das pessoas na faixa etária 87-90 anos, em 2010, disseram que ela "andava de bunda no chão, de arrastos ou trancos", e outras que ela se "rastejava [de barriga] igual cobra".
Não foram consideradas pelos autores, as opiniões, como presenciais, de pessoas nascidas a partir de 1924, então classificadas como ouvintes, para maior segurança e crivo do assunto tratado.
A maioria dos testemunhos ouviram, por Zé da Gruta e outros antigos informantes, que Ritinha era viúva de boiadeiro ou tropeiro; alguns sabiam que Rita tivera filhos, todos mortos ainda crianças, acreditavam, exceção talvez a uma filha que teria se casado e tido descendentes.
Ninguém nunca ouviu dizer de algum sobrenome de Rita, que não o apelido 'Emboava', nem que um filho dela morrera em idade adulta.
Todos os informantes, de religião católica, acreditavam numa aura de santidade em 'Sinhá' Rita, poucos achando que "coisa de fé é da cabeça de cada um".
Os religiosos mais velhos, devotos ou saudosistas, lamentam a iniciativa do padre não mais celebrar missas na 'Capela de Ritinha', quando muitos se encontravam, "e era lindo, todos traziam rosas para benzer e depois levavam para casa".
Localizados no município médiuns de incorporação, através dos quais a manifestação de 'Nhá' Rita, mas nenhum soube responder com segurança quem realmente a entidade e a sua história, pois que ela "incorpora e só dá a benção ou passe" sem nada falar de sua vida terrena, senão o nome e palavras de conforto, ou lembranças de seus sofrimentos; um espírito bastante humilde.
Evangélicos acreditam que "isto é dos católicos e da tradição", que 'Nhá' Rita foi mulher sofrida e a Deus o julgamento. Nenhum ousou dizer, que era 'coisa do demônio'.
Ao frei Estevão Nunes, vigário da paróquia de São Sebastião em Santa Cruz do Rio Pardo, indagou Celso Fleury Moraes: "Ouviu falar de Ritinha Emboava?", para a resposta seguinte:
—"Não conheço nada da Ritinha Emboava. Ouço falar alguma coisa. Pode ter sido uma pessoa que se santificou através dos sofrimentos, mas porque a Igreja não reconhece oficialmente este tipo de culto, a gente também não pode reconhecê-lo publicamente; por isso, quando rezo missa por ela, rezo em sufrágio e não em ação de graças; por isso também deixamos de rezar missa na capelinha dela. Não estou negando nada, estou apenas deixando de afirmar."
"Creio e espero que ela esteja realmente no seio de Deus, gozando da paz e felicidade eternas, e que sendo assim – como todos os salvos – possa interceder por nós junto a Deus" – (Fleury Moraes, op.cit, transcrição das palavras de Frei Estevão Nunes, para citada reportagem Ritinha Emboava – Santa?).
-o-

II - A VERDADE SOBRE RITA EMBOAVA

Celso e Junko pesquisando via internet – foto original
Sérgio Fleury Moraes – www.debate.com.br

1. Documentos atestatórios 
Apenas no ano de 2010 resgatados, por SatoPrado, os documentos que atestam a biografia da personagem, o nome do marido, os registros dos filhos, sua história de vida.
Rita Emboava, conhecida por Sinhá ou Nhá Rita, também Ritinha, mulher agraciada no imaginário popular santacruzense, com segurança histórica viveu em Santa Cruz do Rio Pardo – zona urbana, entre os anos de 1884 a 1931.
Ela sofria o Mal de Hansen, e todos sabiam disto.
"Quem não conhece em Santa Cruz essa misera mulher, marcada pelo ferrete de Lazaro, a Nhá Rita, que arrasta pelas ruas, de porta em porta, a implorar a caridade, as desgraças de sua alma dolorosa, a chagas do seu sangue envenenado?" 
"(...)."
"Tropega, com um pé ja devorado pelo vírus da Morphéa, manquejando, passa ela diariamente, sempre delicada, denotando alguma educação, a implorar para seu filho." 
"(...)." 
"Nesse mendigar diurno por uma mulher que se arrasta com dificuldade, colhendo esmolas que lhe atiram ao colo emagrecido, ella obedece ao mais sublime dos sentimentos nascidos do coração, (...): o amor de mãe. Ver morrer este filho a trescalar como carniça (...), é dor para o qual não ha conforto; é dor sobrehumana que bestializa, anniquila, desvaira. (...)." 
"Mas não, essa dor teve um abrigo, esse abrigo foi debaixo das asas brancas do anjo da Caridade, que foi levar em nome de N. Senhora do Carmo, o alimento, o conforto, a extrema-uncção de um consolo, de uma esperança numa outra vida, para onde partiu agradecida aquella alma supliciada." 
"(...)". 
-Correio do Sertão, 14/03/1903: 1, coluna Aos Sabbados, assinada pelo pseudônimo Sertanejo). 
Na mesma edição, a 'Irmandade Nossa Senhora do Carmo', ao prestar contas das atividades caritativas-sociais com medicamentos e alimentos aos menos favorecidos, informou "(...) e a um d'elles, Antonio, filho de Nha Rita, fez o enterro, modesto é verdade, mas a que nada faltou, do caixão à mortalha, despendendo só com o enterro, quantia superior a 20 mil réis." (Correio do Sertão, semanário, edição de 14/03/1903: 2, artigo assinado pelo farmacêutico e membro da ordem, Antonio Sanches Pitaguary). 
No Registro de Óbito de Antonio, filho de Nhá Rita, constou: 
"Aos vinte e cinco dias do mez de Fevereiro de mil novecentos e três, nesta Villa de Santa Cruz do Rio Pardo compareceu no meu cartorio Joaquim de Oliveira Lima, e na presença das testemunhas abaixo declarou que hoje pela duas horas da madrugada, nesta Villa falleceu uma pessoa do sexo masculino de nome, Antonio Martins de Linhaes, com trinta e dois annos, solteiro, natural desta Parochia e residente nesta Villa. Dita pessôa é filho legitimo de João Miguel de Linhaes e de Rita de Andrade e falleceu proveniente de morphea e seu cadaver vai ser sepultado no cemiterio Municipal desta Villa. E para constar lavrei este termo que assigno com o declarante e as testemunhas abaixo que assistiram o obito. (...)" (Cartório de Registro Civil (...), Livro C-4, de 16/03/1902-30/12/1903: 169, Registro 2021, Santa Cruz do Rio Pardo, mantida conforme grafia da época).
A dar crédito ao informante do óbito, o falecido teria nascido em Santa Cruz do Rio Pardo, como região ou local, no ano de 1871, revelando a mãe 'Rita de Andrade' e o pai 'João Miguel Linhaes’, talvez sobrenome Linhares.
O registro de batismo de Antonio Martins de Linhaes, assim como o assento de casamento de seus pais, teria ocorrido após setembro de 1870, quando o sertão sem padre por dois anos, pela morte do padre Andrea Barra, por assassinato, e no período 1870/1872 padres visitadores faziam os sacramentos, registrando- os, todavia ignorado para onde levados os livros. Presume-se Rita casada com Linhaes em final de 1870 e o filho nascido em 1871.
Documento anterior ao óbito de Antonio, informa o batismo de Guilherme, aos 16 de abril de 1874, idade de nove dias, filho legítimo de Rita Generosa de Andrade e João Miguel Linhares [Linhaes], ato oficiado pelo reverendo padre João Domingos Figueira, e foram os padrinhos Domiciano José de Andrade e a esposa Maria Domiciana Leite – tios avós de Rita. Guilherme faleceu em Santa Cruz do Rio Pardo, aos 09 de junho de 1890, de "morpheia" (Livro de Óbitos, 100_5219), quando já falecido o seu pai.
'Rita Generoza de Andrade', então, não simplesmente aconteceu na urbe santa-cruzense num dia qualquer, no início do século XX, já hanseniana, num tempo que qualquer enfermo daquela natureza era escorraçado da cidade, perseguido e preso pela polícia para confina- mento compulsório num leprosário.
Assim, entender Rita doente a esmolar pelas ruas de Santa Cruz do Rio Pardo, sem perturbação alguma, ou era o seu maior milagre realizado, ou tinha ela a proteção imposta pelo sobrenome Andrade, o mais importante na sociedade regional da época e por décadas seguintes. 
Rita era uma Andrade, confirmada em seu documento batismal de 15 de setembro de 1859, com idade de três meses, "filha legítima de José Joaquim de Andrade e Anna Luiza de Jesus", sendo oficiante do ato o Reverendo Padre Andrea Barra, Vigário da Freguesia de São Domingos (Batismos, Santa Cruz do Rio Pardo, Livro 1859-1879: 9).
Por Luciano Leite Barbosa, descendente (pentaneto) de Joaquim Manoel de Andrade – 'O Pioneiro do Turvo', quanto à filha dos seus tetravôs, José Joaquim de Andrade e Anna Luiza de Jesus, "Se ela for essa tal Rita Emboava, teria 15/16 anos de idade quando batizou o filho Guilherme em 1874.(...)."
A mãe de Rita, dona Anna Rita de Jesus, era filha de José Rodrigues da Silva e Maria de Nazareth, estes nascidos, batizados e casados em Aiuruoca-MG, e anos depois, na então província paulista – sertão de São Domingos, foram os donos primitivos da fazenda Santa Cruz da Boa Vista (DOSP, edição de 05/02/1909: 396-397), onde moravam em 1859, quando do nascimento de Rita. 
A fazenda Santa Cruz da Boa Vista se tornou, bem depois, o Distrito de Domélia hoje pertencente ao município de Agudos. O todo da então fazenda Santa Cruz era conhecido como 'Boca da Mata' ou 'Boca do Campo' (DOSP, op.cit), antiga zona eleitoral onde inscrito, sob nº 105, o pai de Rita (Lista Geral de Votantes, da Freguesia de São Domingos, Município de Botucatu, ano de 1859, 4º Quarteirão do Turvo Boca da Matta).
Em 1931, o último documento localizado referente a 'Nhá Rita', o registro do seu óbito:
"Aos vinte sete dias do mez de outubro de mil novecentos e trinta e um nesta cidade de Santa Cruz do Rio Pardo no Cartorio compareceu Antonio Bertoncini Filho, exibiu um attestado medico do Dr. A. Guimarães [Abelardo Pinheiro Guimarães] declarando-me que hoje, às duas horas nesta cidade, no domicilio do "Leproso", faleceu uma pessoa de cor branca do sexo feminino de nome "Rita Emboava", de setenta annos de edade natural de São João da Boa Vista deste estado, viuva de pessoa ignorada residente nesta cidade e de filiação ignorada vae ser sepultada no Cemiterio local, do que fiz este termo que assinado pelo declarante. (...)" (Cartório de Registro Civil, Livro C - 20, fls 222 - verso e 223, certidão nº 614, Santa Cruz do Rio Pardo-SP).
Rita, por todos os documentos levantados pelos autores, não nasceu em São João da Boa Vista, conforme declaração dada em seu óbito, certamente o informante a ignorar, trocar ou confundir Santa Cruz da Boa Vista – que não existia mais com esse nome, por São João ambos da Boa Vista. 
Não se sabe desde quando Rita efetivamente residente na zona urbana de Santa Cruz do Rio Pardo, certamente depois de casada e após sua viuvez, acolhida pelo médico italiano 'Samuel Genuta' que estudava e tratava hansenianos, em sua chácara, lugar depois denominado por 'Domicílio dos Leprosos', nas imediações do Ribeirão São Domingos – antes do início da rua Saldanha Marinho. 
amuel Genuta o primeiro médico em Santa Cruz do Rio Pardo, vide 'Santa Cruz do Rio Pardo: memórias, documentos e referências' http://satoprado-ebook.blogspot.com/2014/07/1883-saude-no-sertao.html).
Testemunhos de pessoas que conheceram Rita descrevem-na pessoa miúda, humilde e muito doente, que jamais reclamava de sua moléstia, sempre otimista e pronta para aconselhamentos, às muitas pessoas que iam procura-la por problemas aflitivos diversos, a troco de alimentos, roupas e artigos de limpeza.
Apesar da miserabilidade, 'Nhá Rita' sempre repartia seus ganhos com outros hansenianos acampados na Água do Pires – lugar então retirado da cidade.
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III –'SINHÁ RITA' – FOTOS E DOCUMENTOS

Foto 1902/1907 de hansenianos na chácara 'domicílio dos leprosos',
presente Rita Emboava, entre duas crianças. L.C. de Abreu Sodré:
Inspeção Sanitária de Santa Cruz do Rio Pardo, 1923: 52
Outra foto, 1902/1907, dos hansenianos, observando-se uma jovem [ausente na primeira
 imagem] próxima a Rita Emboava, na chácara 'domicílio dos leprosos'.
L.C. de Abreu Sodré, op.cit, 1923: 52

1. 'Lepra' – doença segregativa
O santa-cruzense Luiz Costa de Abreu Sodré, ano de 1923 e ainda formando em Medicina, elaborou para a Faculdade de Higiene de São Paulo interessante trabalho intitulado 'Inspeção Sanitária de Santa Cruz do Rio Pardo'.
Trata-se de interessante trabalho resgatado pela então for- manda em medicina Maria Luiza Andrade (19/12/1973). Neste estudo, à página 17, LC. Sodré informa:
"(...)."
"CHIQUEIROS - Existe numerosos principalmente na parte da cidade chamada Villa Nova. Ahi encontramos dois grandes chiqueiros que alojam cada um mais de duzentos porcos." 
"Estão situados próximos e mesmo dentro de um ribeirão (...)." 
"Abaixo dos chiqueiros a pouco metros de distâncias existe um logar adequado, onde lavam roupas varias lavadeiras da cidade."
O texto transcrito serve para melhor compreensão a localização "onde lavam roupas", que se situava no ribeirão São Domingos, nas proximidades do Chafariz – pouco acima onde a ponte Benedito Cardoso, e os chiqueiros antecedentes ao lavadouro situavam-se em duas chácaras, aproximadamente entre as atuais ruas Antonio Evangelista da Silva e Luiza Vicencotti Camilotti, ambas à margem esquerda do citado ribeirão.
O relato de Sodré ganha contornos de indignação e revolta:
"(...) um fato digno de indolência, fatalismo indiferença dos fiscaes da Camara Municipal: o ribeirão antes de passar pelos chiqueiros acima referidos passa pelos fundos de quintal de uma família de leprosos em estado adeiantado – ahi são lavadas por elles próprios suas roupas – em aguas onde mais tarde toda a população manda lavar suas roupas."
A localização dada, onde estariam os hansenianos, recai sobre a data de terreno onde o 'domicílio dos leprosos' na zona urbana de Santa Cruz do Rio Pardo, ou seja, a casa de Sinhá Rita. A água utilizada pelos hansenianos era proveniente de uma mina que passava pelo terreno antes do desague no ribeirão. 
As informações onde a residência de Rita, apontam a antiga Rua 7, depois, depois rua do Andrade, atual Saldanha Marinho, que ia das proximidades do ribeirão São Domingos à margem do rio Pardo.
"Nhá Rita morava a duas quadras do Largo da Matriz, Praça Anchieta, um dos mais centrais logradouros da cidade, naquele tempo" (Queiroz Filho, p. 205, Notas e Bibliografias - 10).
Meticuloso, LC. Abreu Sodré anexa à página 52 de seu trabalho duas fotos dos "leprosos – família de morpheticos", entre eles a Rita Generoza de Andrade, apelidada Emboava.
Numa das fotos vê-se uma tenda desarmada, a indicar transitoriedade da família em visita ou de passagem pela casa de Rita.
As fotografias de Rita Emboava (entre 1902/1907), mostram nódulos em suas mãos e articulações dos membros superiores, sendo observáveis as mutilações parciais em seus dedos, e a desfiguração do rosto. Os pés de Rita não estão visíveis, porém se descrevia em 1903 "com um pé ja devorado pelo vírus da Morphéa, manquejando" (Correio do Sertão, de 14 de março de 1903).
Nas referidas fotos Rita se apresenta em pé, e somente anos de- pois, por volta de 1923, segundo testemunhos, não mais se sustentava e então, sentada, rastejava-se ainda com a força dos braços; outros afirmam que ela se "rastejava igual cobra", "de barriga", ou, 'de bunda'.
Poucos, aqueles nascidos em 1914/16, se lembram de Rita andando com as próprias pernas, apoiada num cajado ou a cambalear. 
Luiz (Zito) Berna, nascido em 1914, que conheceu Ritinha, viu as fotos presumivelmente dela e emocionadamente a distinguiu. As fotos constavam de um álbum, sem qualquer prévia informação, com re- tratos de outras pessoas e locais, inclusive da própria Rita – uma profissionalmente desfocada e outra normal, para a época que foi fotografada, reconhecida por Zito Berna, na primeira "(...) parece que é Siá Rita. Eu acho que é ela sim", e ao ver a foto de Rita sem o grupo, concluiu: "mas é ela mesma, quanto tempo...". 
Uma idosa residente em outro município, neta de uma das irmãs de Rita, ao ver a foto em 2010 – cópia que lhe foi enviada através de parente, achou a fotografada bastante parecida com sua avó, porém não inadmitida estimulação.
Ninguém, nunca antes, ouvira dizer de algum outro sobrenome de Rita, nem que um filho dela morrera já em idade adulta - 32 anos.
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IV – O MÉDICO ITALIANO SAMUEL GENUTA

Imagem representativa – foto e criação SatoPrado, assinatura do Dr. Samuel Genuta
de um abaixo-assinado – ALESP PR 84_007
1. O estigma da doença sobre a família Emboava
Rita, o marido e dois filhos [localizados], todos hansenianos, apresentam documentação segura de presenças em Santa Cruz do Rio Pardo, a partir de 1871, coincidindo o período de 1883 a 1894, com a estadia do médico italiano Samuel Genuta na localidade.
Conhecido por Dr. Genuta, diziam que "(...) tinha descoberto, com os índios, um remédio que curava lepra. Depois disto a casa dele vivia cheia de leprosos" – [RIOS José Ricardo, "Coronel Tonico Lista – o perfil de uma época", obra póstuma 2004 – publicação DEBATE, Santa Cruz do Rio Pardo, página 66].
O médico era residente em Santa Cruz do Rio Pardo, onde foi o primeiro profissional médico e manipulador de medicamentos, com certeza histórica desde 20 de setembro de 1883, comprovada por sua assinatura e profissão aposta num abaixo-assinado juntamente com os moradores da localidade, encaminhado à Assembleia Provincial de São Paulo, reivindicando elevação do lugar à condição de Comarca - (ALESP, Documentos para Santa Cruz do Rio Pardo - Século XIX, PR 84_007, CD A/A).
Certamente chegou antes, com as primeiras famílias italianas.
A tradição dizia que Genuta teria vindo a convite para ser o "médico de Joaquim Manoel de Andrade e de outros grandes fazendeiros", de competência e bondade tanta que "atendia todo mundo e não cobrava de ninguém" (Rios, op.cit, p: 66)], dos pobres, evidentemente. Mais provável sua chegada através do italiano Moyses Nelly que cuidava da imigração em Santa Cruz.
A moléstia de Rita e a presença do médico Samuel Genuta, a convite do fazendeiro-mor Joaquim Manoel, segundo Rios, que também cuidava dos leprosos, apesar de não afirmado sem perífrase, isto parece bastante forte quando se trata do sobrenome Andrade, o mais relevante para a sociedade santacruzense da época.
Considerando documentos oficiais, Genuta viveu por mais de uma década em Santa Cruz do Rio Pardo, onde era eleitor e assim registrado: "Samuel Genuta (Dr), 40 anos, solteiro, italiano, filho de Vicente Genuta P [ilegivel], médico, residente à Rua Saldanha Marinho - Santa Cruz (...)" – (Livro de Alistamento de Eleitores de 1890, Registro nº 102, página 02 – verso).
A residência de Genuta era assim referenciada: "(...) ele morava ali embaixo, perto do Ribeirão, numa casa de taboa (...)" – (Rios, op.cit, p: 66), uma chácara onde o início da Rua Saldanha Marinho, abaixo de onde a atual 'Capelinha de Rita Emboava', exato lugar onde ela morou e morreu. Era ali que os hansenianos procuravam Genuta "(...) a casa dele vivia cheia de leprosos (...)." – (Rios, op.cit, p: 66).
Se a casa de Genuta "vivia cheia de leprosos", evidente que entre eles a Rita, o marido e os filhos. Por muitos anos ali foi o endereço de Rita, citado em 1931, como 'domicilio do leproso' (Cartório de Registro Civil, Livro nº 20, fls 222 – verso, certidão nº 614, Santa Cruz do Rio Pardo, 27 de outubro de 1931), conforme consta em registro de óbito de Rita Emboava.
Rita residiu no local, por tempos, com o filho Antonio, morto em 1903. Documento oficial aponta que o marido de Rita, João Miguel Linhaes (Linhares), vulgo João Emboava, morreu antes do filho Guilherme - falecido em 1890, mas não se sabe se ambos, pai e filho, naquele endereço.
Dr. Genuta tem registros oficiais de aonde era a sua morada no município, como eleitor residente, também nas qualificações de 1892 a 1894, porém excluído em 1895, e o seu nome não consta entre os profissionais diversos, ativos no município, na publicação do pioneiro informativo 'O Paranapanema', edição de 30 de novembro de 1895 (CD: A/A).
Em 06 de julho de 1893, Dr. Samuel Genuta e dona Malvina Gonçalves de Oliveira foram padrinhos de Julieta [nascida em 23 de abril de 1893], filha de Moyses Nelli e dona Leocádia de Oliveira Nelli.
Não há registro do óbito de Genuta no Cartório de Registro Civil de Santa Cruz do Rio Pardo, desde os livros iniciais. Rios informa, à página 66 de sua obra, que "No fim, o coitado também ficou doente. Diziam que era lepra (...)", mas não localizado seu internamento em algum leprosário da época.
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V – QUANDO MITO E VERDADE CONFUNDEM-SE

Capelinha de Rita ainda bastante visitada – sendo visível muletas deixadas ao fundo


1. Talvez as tradições mais lindas que a história
Conforme o autor José Ricardo Rios, o médico dr. Samuel Genuta tratava os leprosos e sua casa vivia cheia deles, talvez uma gafaria denominada 'Domicílio/Casa do Leproso', e entre os doentes Rita de Andrade, os filhos e, em algum tempo o próprio marido. A coincidência de endereço dado por Genuta e atribuído a Rita, implica a certeza de um mesmo lugar.
Enquanto Dr. Genuta presente na cidade e a cuidar de seus doentes hansenianos, até cumpre aceitação que os mesmos por lá permanecessem internados e sem motivos à perturbação pública, ou implicância policial, contudo, após a ausência do facultativo, os doentes foram retirados da cidade para o lugar conhecido 'acampamento dos leprosos' na Água do Pires, apenas Rita Emboava a residir no local, vez ou outra alguma família de passagem ou visita.
Até 1895 os hansenianos em Santa Cruz do Rio Pardo tinham como endereço o 'Domicílio do Leproso’, e posterior a 1896 os registros de óbitos "provenientes de morféia" tem como endereço quase sempre a fazenda ou bairro Água do[s] Pires, onde levantado o 'Acampamento dos Leprosos' (Cartório Registro Civil de Santa Cruz do Rio Pardo, CD: A/A).
Os leprosos residentes na Água do Pires lá podiam trabalhar para o sustento comunitário, sob compromisso de não entrarem na cidade, e eram assistidos em suas necessidades por irmandades religiosas existentes, como a Nossa Senhora do Carmo, fundada no ano de 1900, a de São Vicente de Paulo – iniciada em 1915, além da Confraria Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos, cujos informes indicam-na desde os primeiros tempos de Santa Cruz do Rio Pardo, depois estatutariamente reformulada e aberta sem distinções de cor, para atuações religiosas e caritativas.
Não eram tolerados leprosos recém chegadores ou aqueles que ousassem esmolar na cidade. A polícia agia sempre com extremada vi- olência e o indivíduo era expulso, ou preso e conduzido a algum leprosário distante.
O hebdomadário 'A Cidade', em circulação desde 1909, exigia rigor policial ainda maior, sob justificativa de preservar a população do contágio. "No entanto, bem no interior da cidade morava Nhá Rita, também leprosa. A população sabia bem de seu caso, sobre o qual ninguém falava, nem mesmo o semanário tão zeloso da saúde pública local" (Queiroz Filho, op.cit, p: 195 e referências).
— Que força estranha essa de Nhá Rita fazer calados aqueles que não toleravam o seu mal? Por qual razão aqueles que expulsavam, prendiam e conduziam leprosos ao confinamento, não agiam contra Nhá Rita?
Ocorreu, em verdade, única tentativa em bani-la da cidade, em 1918, por ocasião da gripe espanhola, sabe-se lá se por recomendação de alguma autoridade maior de saúde pública prestando serviços no município, ou a polícia por conta própria, para prender os morféticos que ocupavam uma residência duas quadras abaixo de onde instalada a Cruz Vermelha Brasileira – atual salão de festas da casa paroquial , no período da epidemia. O lugar apontado para a ação perseguidora era onde morava Nhá Rita. 
Ritinha, avisada, empreendeu fuga, todavia o Coronel Antonio Evangelista da Silva – o Tonico Lista, mandatário na época, num gesto autoritário ou em atenção à sua irmã Tita (uma das benfeitoras de Ritinha), quiçá outra razão qualquer, mandou seus homens em busca da fugitiva e a fez retornar, em grande estilo, num trole que desfilou pelas ruas da cidade sob aclamações.
Mais comedido que as tradições, ou intérprete melhor, Queiroz Filho assim arremata o mesmo episódio: "Mais que isso, o chefe político da época providenciou condução para sua volta ao casebre, depois de uma fuga que ela empreendeu, atemorizada com a suspeita de também ser presa e removida pela polícia para um leprosário. " (Queiroz Filho, p. 194/195).
Até uma pequena casa de alvenaria o coronel Tonico Lista mandou fazer para Ritinha, sem desmanchar aquela de madeira; e Ritinha ocupou o novo lar até a morte do Coronel, e então voltou para a casa de madeira e nunca deixou ninguém usar a construção doada pelo Lista.
Também o Coronel mandara instalar energia elétrica na casa de Rita, ou iniciativa da própria Companhia, e disto relata Queiroz Filho, à página 195: "O gerente da Companhia de Luz e Força teria pessoal- mente providenciado a instalação elétrica em casa de Nhá Rita".
Ritinha era assim, poderosa, por alguma razão, desde 1871 conforme o primeiro indicativo oficial de sua presença, até quando morreu, em 1931. Talvez lhe pesasse favorável o sobrenome Andrade.
Essa sua atuação permanecia forte nos anos de 1980, quando pelo Decreto Municipal nº 342, de 28 de janeiro de 1983, Rita Emboava foi homenageada com o seu nome para a ponte, sobre o Ribeirão São Domingos, na passagem da atual Rua Luiza Vicencontti Camilotti rumo a Vila Fabiano, bem nas proximidades onde antes parte do terreno de sua moradia.
Para melhores e esclarecimentos e atualizações, pelo referido ato a via de passagem era a antiga Prudente de Moraes, depois José Epiphânio Botelho. Ainda em 1983, outro decreto, também municipal, nº 386, de 30 de setembro, denominou parte da antes Prudente de Moraes/José Epiphânio Botelho, a partir da Rua Catarina Etsuko Umezu [antes Euzébio de Queiroz] em direção à Ponte Rita Emboava e Travessa 1 – Vila Fabiano, para Rua Luiza Vicencotti Camilotti.
Finalmente, a Lei Municipal nº 2598, de 01 de agosto de 2012, denominou Rita Emboava o Conjunto Residencial na Quadra S do Par- que das Nações de Santa Cruz do Rio Pardo.

2. Alguns 'milagres' noticiados
Ritinha era amada, e as principais famílias santacruzenses até se revezam em atenções à 'santa', quando esta impossibilitada de andar.
A família Alóe sempre levava alimentos prontos para Ritinha, incluindo doces de coco, goiabada e marmelada, que a benzedeira tanto apreciava.
A família Cortella acudia Rita nas suas necessidades, e inclusive ofertou, após a morte de Rita, o lugar onde se ergueu a Capela. O senhor Ettore havia adquirido grande lote de terra nas proximidades e inclusive o terreno onde outrora morou e morreu a Ritinha.
De outras famílias auxiliadoras de Rita destacaram-se: Berna, Bertoncine, Camarinha, Costa, Guimarães, Pereira Alvim, Queiroz e Tosato, esta que ainda nos dias atuais (2010), pelos ascendentes lembram-se daquela mulher miúda, inofensiva, que não lamentava suas dores e praticante apenas do bem.
Famílias pobres igualmente amparavam Ritinha.
As irmandades religiosas da época levavam a ela medicamentos e alimentos, contudo muitas vezes recebiam de volta os excedentes para entrega aos outros iguais desafortunados, moradores no bairro 'Água do Pires', ou àqueles que as confrarias bem entendessem.
Então, em agradecimento aos seus socorredores, Ritinha retribuía com uma reza ou benzimentos à distância, pelo vão de uma das janelas da casa. Ganhou fama e no terreiro de sua residência construíram bancos onde pessoas aguardavam as bênçãos de Ritinha, ou um momento em que podiam aproximar-se perto do vão para alguma conversa mais particular.
'Sinhá' Rita tinha o carisma em confortar pessoas aflitas, o dom de curar enfermidades, rezava para chover ou fazer sol, e sarava as cri- ações com bons resultados, dizem, sem nunca ter cobrado dinheiro ou favor algum dos solicitantes, mas não os rejeitava. Aceitava pedidos de preces com horários marcados.
Estudantes pediam ajudas para aprovações em provas escolares, uns solicitavam graças para consertar lares desfeitos ou em dificuldades, outros, até casos de amor.
Rita 'curava simioto, bucho-virado, olho-gordo [mau-olhado ou quebranto], cobreiro, barriga-d'água, icterícia, tosse-cumprida, tosse seca, tísica-galopante, espinhela caída, erisipelas, diarreias e febres, além das dores de angústias e das possessões'. Rezava para os animais, para a roça e para o tempo.
Tinha voz suave, porém rouquenha, o que lhe dava certo tom de gravidade nos aconselhamentos. Rita vivia espécie de 'catolicismo po pular' e não diferia em quase nada das benzedeiras e benzedores da sua época, afora que ela não tocava os clientes e não frequentava a Igreja.
Às vezes era acometida de visagens celestiais, ocasiões em que apresentava fenômenos de língua estranha; às vezes atormentava-se com a presença de maus espíritos ou do próprio diabo – diziam, e aí sua voz era cavernosa ou alta estridente, sem harmonias.
Como pessoa, Ritinha "desfrutava de conceito 'muito boa' e 'conformada', embora tivesse uma 'língua terrível' sempre pronta 'aos piores palavrões', à simples presença, às vezes, de uma galinha a lhe entrar pela casa." (Queiroz Filho, 1966: 196).
A notícia da morte de Rita, numa terça-feira de 27 de outubro de 1931, em Santa Cruz do Rio Pardo, foi divulgada 'boca a boca' e pelo serviço de alto-falante da cidade. O prefeito decretou luto e as repartições públicas foram fechadas, então, de repente, nem mais o comércio estava aberto. Assim ainda se lembra uma descendente da família Cortella (2010), e outras pessoas da época têm a mesma memória.
Alguns que nunca viram Ritinha nem foram, em vida, pedir-lhe bênçãos, se recordam que quando da morte dela, 'fechou tudo' e todos foram para lá. Morrera a 'santa'.
Antes do sepultamento de Rita já corriam comentários das primeiras curas pós-morte. Alguém com sopro no coração, em razão de febre reumática ocorrida na infância, que quase nem andava, de repente estava lá presente em última homenagem à falecida.
Outros milagres acontecidos e, depois a seguir, ainda são comentados nos dias atuais (2010), cura de doenças da pele, tipo bouba já com tumores espalhados pelo corpo; cobreiros expandidos – vergões ou placas vermelhas onde se desenvolviam vesículas espalhadas pelo corpo; alergias diversas; asmáticos; dores reumáticas; e aqueles impossibilitados em andar por travamentos na coluna – problemas ciáticos, bastante comuns na época, e alguns claudicantes.
No enterro de Rita compareceram os principais nomes da cidade, ocorreram discursos louvando as qualidades da falecida e de sua vida santificada, os jornais divulgaram notas, e à Rita doou-se túmulo em terreno definitivo. Foi o maior acompanhamento a um funeral, jamais dado a nenhuma outra personalidade, à exceção do Coronel Botelho, "porque neste tinha muita gente de fora" – ainda dizem descendentes que ouviram isto dos avôs.
Rita já em vida era pessoa bem quista, e nela o 'mal' era apenas purificação da alma ou o sacrifício de uma santa, de algum espírito iluminado que escolhera a doença e a miséria para sua última jornada terrena, pois já se pensava isto, e o articulista 'Sertanejo' deixou transparecer essa teologia quando diz de Rita, conforme exposição no início deste estudo.
Aliás, o Correio do Sertão parecia um grande motivador em pro- mover a aceitação de Rita no seio da comunidade, a exemplo da matéria publicada, 'A Leprosa', transcrita de Coelho Neto (Correio do Sertão, 28/11/1903: 1).
Coelho Neto, trata-se Candido Coelho Neto, professor, que desde o final do século XIX manteve escola de ensino particular em Santa Cruz do Rio Pardo, educação primária em secundária pelo sistema externato, para ambos os sexos, ainda em atividade no ano de 1913, à rua Conselheiro Antonio Prado nº 6 – na época (O Município, hebdomadário santa-cruzense, edição de 22/06/1913: 2).
Para alguns descendentes, os antigos sabiam Rita inofensiva, que evitava contato direto com as pessoas, era respeitadora e aceitava com resignação sua enfermidade.
Para estes, Rita ser atendida em suas necessidades, significava que ela ia cuidar dos outros morféticos isolados na casa, por isso ali o denominado 'domicilio dos leprosos' – distinto do 'acampamento dos leprosos', na Água do Pires que ela também servia, e então toda a cidade via-se contribuinte com a caridade, sem remorsos da polícia em prender e encaminhar para os confinamentos os leprosos outros que insistiam permanência na cidade.
Nos anos de 1970 alguns lembravam que Rita era educada, pagava o comércio em moedas colocadas num vasilhame adequado, pedindo para derramar querosene e depois atear fogo, para 'consumir o mal'. Talvez lenda, de Rita ninguém cobrava, ela pedia apenas para o filho e outros doentes e quando absolutamente necessitasse, e nem pedia, propondo escambos com suas mercadorias: bicos de renda, borda- dos e velas, que ela bem sabia, seriam queimadas tão logo adiante.
Tais costumes, em atear fogo nos vasilhames com moedas vindas dos hansenianos, também ditos em outras antigas localidades, seriam práticas instituídas por ávidos comerciantes 'sírios e libaneses', para se evitar 'contaminações'.
Sua casa foi incendiada, após sua morte, inclusive a que lhe dera o Coronel, assim que encerrado o sepultamento, como medida profilática, e alguns fervorosos, acompanhando o procedimento, juravam ter visto Rita sorrindo entre as chamas, liberta de seu mal. Os restos calcinados da 'casa de tijolos' ainda podiam ser vistos nos anos de 1950.
Lamenta-se a ordem ou o consentimento do prefeito Dr. Abelardo Pinheiro Guimarães, que era médico, para os incidimentos com tudo o que havia dentro das casas, inclusive dos possíveis livros e anotações do primeiro médico em Santa Cruz do Rio Pardo, o italiano Samuel Genuta.
Rita ainda em vida seria medianeira e atendia a todos, sem acepções de pessoas ou distinções sociais, e por todos era igualmente respeitada. Até as crianças gostavam da 'santa' e ela, aparentemente, não lhes metia medos.
Os milagres de Rita ou graças alcançadas através dela, não ficaram no antes e dia de sua morte, e sim continuaram num crescente e seu túmulo era repleto de velas e pedidos, seus feitos ganhando projeções e, em 1945/1946, o então prefeito nomeado, Leônidas Camarinha, mandou erigir-lhe uma capela – pagamento de promessa [política], diziam, numa parte do terreno onde ela teve sua casa por décadas.
A construção da capela, por ordem de Leônidas Camarinha, trouxe certo embaraço à Igreja Católica, afinal tratava-se de culto a uma pessoa não canonizada, e o problema resolveu-se dedicando a Ca- pela a Santa Rita de Cássia, cuja vida com certa similitude à Rita Emboava, ambas sobrevivendo aos filhos e marido, a orago a enclausurar-se num convento, enquanto Ritinha forçada ao isolamento pela doença.
Na capela 'particular' de Ritinha celebravam-se missas, até duas vezes por mês – às segundas-feiras, pelas almas do purgatório, e pedi- dos de bênçãos, e os fiéis levavam flores, e cânticos eram entoados e o ofício religioso terminava num congraçamento entre famílias vizinhas e os fiéis participantes. A solenidade religiosa maior ocorria em 22 de maio, dia de Santa Rita de Cássia e a benção das rosas levadas pelos fiéis.
Também existiam as rezas – terços e novenas, pedidos e pagamentos de votos. No túmulo de Rita ainda se acendem velas, fazem rezas e pagam-se promessas, e até mantida a prática usual de se imprimir graças alcançadas. Celebração de missa requerida por algum devoto pelo sufrágio da alma de Rita Emboava, atualmente apenas nas igrejas oficiais.
O vigário proibidor do culto à Rita entendeu que lugar de missa era na matriz e templos legalmente constituídos. Sem padres para o ofício religioso, a tradição caiu no esquecimento, e os objetos que existiam no interior das duas capelas foram retirados, quando das reformas e nunca mais vistos.
Em busca de explicações por qual razão os padres resolveram findar o 'culto a Ritinha Emboava', justamente quando muitos que- riam sua beatificação ou mesmo a condição de santa, certamente de- para-se com o problema da historicidade perdida sobre sua vida, por exemplo, sua filiação desconhecida ou apagada, a significar uma santa sem biografia, num tempo que lendas não mais subsistem, para a canonização de um fiel não iniciado em organismos religiosos católicos.
O 'culto a Rita', observam os autores (SatoPrado), diminuiu, e, apenas vez ou outra ainda se vê alguma reza diante das capelas, exceto no 'finados', algumas velas acesas ou restos consumidos, alguma imagem de santo, e até bilhetes como testemunhos de pedidos ou graças recebidas por interseção de Ritinha Emboava.
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